segunda-feira, julho 14, 2008

olhar pecador

As mãos fogosas
Seguem o calor do corpo
Imanado do desejo.
Os olhos possuem outro corpo,
Na loucura de um momento
Que alerta todos os sentidos.
E o sangue esvai-se por dentro,
Jorra sem sentido.
A pulsão não pára.
Fica mais forte, mais desassossegada.
A paz está longe.
Emaranhou-se na culpa de um olhar pecador.
E suspensa ficou
Perdendo-se nas partículas do ar.

domingo, junho 29, 2008

A vida




Em tanques de guerra
Pela luta nos campos de batalha travada
Com espadas de dois gumes
E sangue venenoso,
Erguemos a honra e manchamos as mãos.
Tatuamos o nome dos rivais
No corpo nu de esperança.
E em seguida lavamos o rosto e somos outros.
Renascemos das cinzas,
Mas continuamos a servir a vingança,
De quem nunca se olhou a si mesmo.

Para sentir, pegamos na arma e disparamos.
Bebemos o sangue, sedentos de poder.
Gememos deliciados.
Controlamos as rédeas da vida
Ao mesmo tempo que olhamos para cima
E lá não vemos ninguém.
Estamos no topo, podemos ejacular
E dar continuidade ao legado de arrogância.

Depois recolhemos as feridas e partimos
Para sarcasticamente dizer “ADeus”

quarta-feira, junho 11, 2008



Letras num papel impressas
Que se habituaram ao meu olhar,
Ao meu toque incessante.
Leio-as e percebo o seu relato
De um futuro ante-previsto.
Escrevias que me perdeste.
Procuraste manter viva a chama,
Ou pelo menos a faísca,
De uma louca amizade,
Mas as palavras cumpriram o seu destino.

Perdemo-nos na distância,
Destruidora de febris laços
Que apagou as imagens projectadas
De momentos ainda não vividos.
Os outros ficaram na memória
Porque a esses a distância não chega.

No sufoco de um grito rouco
O teu nome não se libertou da minha boca
Ficou preso no vazio que em mim te pertence.
Nas fotografias eu no teu peito descansava.
Nas cartas a amizade durava.
Na realidade isso não passava de nada.

E eu carrego a mentira no bolso.
Numa carta esperançosa
Que agora me faz desacreditar
E me pesa no olhar.

quarta-feira, junho 04, 2008

Os mendigos da sociedade


O tempo vai e nunca mais volta.
Deixa-nos presos na revolta,
Com a desilusão no olhar,
E a glória na imensidão do mar.

O ontem parece que não foi nosso,
O hoje é só um fraco esboço
De um futuro pressuposto
Nas amarguras de um rosto.

Somos um compasso da música.
Desafinamos toda a acústica
Somos os mendigos da cidade,
As vítimas da sociedade.

quinta-feira, maio 22, 2008

aqui sentado no escuro abandonado


Aqui sentado
no escuro abandonado
eu fujo de mim
e encontro-te a ti.

Quero ser quem és
remar contra a maré
subir ao céu
e olhar por quem adormeceu.

Vigilante de sonhos
guarda-costas da alma
assim para sempre
até não se ver viva alma.

Aqui sentado
no escuro abandonado
eu fujo de mim
e encontro-te a ti

Um dia não são dias
quando estou ao teu lado
a ver o céu azulado
e o coração se agita apaixonado

Entre canções, musicas de amor
eu chamo por ti,
gostava que aqui estivesses,
comigo, a sufocar de ardor.

terça-feira, maio 06, 2008


Perco as noites a pensar em ti
E sinto-me morrer mais devagar.
Ao invés definho, contigo
Pela mão em sonhos distantes.

Espero e desespero à tua espera.
Afastei-te para te poder esquecer.
Mas o amor passa pelo tempo e pela distância,
E faz a vida passar por ele.
E eu não sabia disso
E entreguei-te a minha vida.

Agora quero-a de volta.
Mas ela nunca mais vai ser a mesma.
Já não sei que vida desejo, que ar respiro.
Deixei-te entrar no meu restrito jardim,
Onde só entra quem eu quero.
Nele te confundiste com uma flor.
E eu destruí o meu jardim para expulsar esta flor.
Mas nunca mais a encontrei.

Criaste raízes algures, num qualquer recanto.
Hoje és a erva daninha de todo o meu jardim,
De todo o ser que já fui e não vou ser mais.

Ensinaste-me a palavra amor.
E consequentemente dor.
Por isso e por todas as noites sem dormir,
Um muito obrigado

Por que não saber amar é não viver

sexta-feira, maio 02, 2008

O tapeteiro aéreo


Era uma vez…

Um homem viúvo que vendia, porta-a-porta, tapetes voadores. Um homem de feições tristes, fustigado pela solidão que a morte da sua mulher lhe causou.
Um dia, em trabalho, dirigiu-se a uns andares onde nunca havia ido.
Chegado ao último apartamento, e já com duas vendas efectuadas naquele prédio, abriu-lhe a porta uma mulher incrivelmente bela. E então o homem sentiu o que julgava impossível voltar a atacá-lo… O seu coração parecia que estava a participar numa corrida de tão acelerado que batia. Uma corrida onde ele não se tinha inscrito…
Incapaz de falar, ficou especado a apreciar o que lhe parecia uma miragem. A senhora, achando estranho o vendedor não dizer nada, perguntou-lhe se este se sentia bem.
De repente, vindo do elevador surge um senhor de fato e gravata a chamar pela miragem do “tapeteiro aéreo” (nome com que o haviam apelidado).
“Diana” foi o que o fez como que sair de coma – consciente mas atordoado. Era o nome da sua falecida mulher…era o nome daquela mulher…
Já só conseguiu vislumbrar o homem e a mulher abraçados antes de o elevador o transportar para terra firme, pensava ele. Mas a lembrança de todo aquele curto momento não o largava. Tal e qual uma carraça, só que esta não lhe provocava febre mas sim um naufrágio, em que ele se afogava em whisky.
Depois da sua mais que tudo falecer, refugiou-se naquela pequena cidade, onde vivia com a memória do passado e a aliança que nunca tirava do dedo. Fazia uns biscastes e recentemente decidiu entrar no mercado da nova descoberta – os tapetes voadores.
As pessoas adquiriam-nos essencialmente para viajar, embora, já tenha sido provado, numa concentração de tapetes voadores, que até futebol dá para jogar em cima deles.
Por esta altura, a cidade andava em festa, viam-se fitas coloridas por todo o lado, e de noite, as luzes dos carrosséis, iluminavam a vista das crianças, enquanto que os adultos eram guiados pela música.
Foi no meio daquela agitação que o “tapeteiro aéreo” avistou Diana e o homem do outro dia, a quem ela continuava abraçada.
Ela também o viu e pediu-lhe que voltasse a ir a sua casa pois queria comprar-lhe um tapete voador.
Que fazer? Ir ou não ir? Quem será aquele homem que a acompanha? – Estas e tantas outras questões inundavam a cabeça do vendedor.
Um dia lá agarrou a coragem e foi a casa de Diana. Desta vez convinha conseguir dizer algo…
- Boa tarde. Aqui estou como me tinha pedido. – disse o vendedor um bocado atrapalhado.
- Olá! Faça o favor de entrar. – cumprimentou-o Diana com um sorriso no rosto.
- Quer então comprar um tapete voador…
- Sim quero. E…se não se importasse gostava que viesse experimentá-lo comigo.
- C-claro! Vamos então escolher um. Tenho aqui uns que acho que vai gostar…
Depois de algum tempo a conversarem e a decidirem o tapete voador que Diana ia comprar, partiram para um sítio sugerido por ela. Um sítio onde o silêncio era rei.
Pela primeira vez, em muitos anos, Joaquim, o “tapeteiro aéreo”, sentiu-se em paz; encontrava-se no local perfeito, com uma mulher de fazer inveja às deusas.
No meio da conversa perguntou-lhe, indirectamente, quem era o homem que no outro dia havia ido ao apartamento dela.
- É meu irmão. Ele vive um bocado longe daqui e veio-me visitar na altura da festa. E…a sua mulher como é que se chama? – questionou-o apontando para a aliança dele.
- Eu não sou casado, já fui…a minha mulher morreu. Eu uso a aliança porque nunca me consegui desligar do passado e acho que também como forma de penitência e de solidão.
Joaquim já há muito que não falava tão abertamente sobre o que lhe ia na alma e estar a fazê-lo com uma estranha deixou-o envergonhado.
- É melhor irmos embora… – disse ele.
- Vamos ficar mais um pouco, por favor, estou a adorar falar consigo.
- Trate-me por tu, se faz favor.
- Quando você também o fizer… – disse Diana a sorrir.
Que sorriso tão lindo, que calma infinita estava a invadir Joaquim.
Queria dizer-lhe o que ela lhe fazia, mas por outro lado ainda estava demasiado agarrado ao seu passado e à sua solidão. E, além disso, não conseguia encontrar palavras para se exprimir. Nem palavras nem coragem. Então, de repente, ela aproximou-se mais dele e beijou-o.
- Desculpe mas já não aguentava mais… Estar aqui consigo faz-me sentir maravilhosamente bem! – revelou Diana.
Estaria o pobre de alma “tapeteiro aéreo” preparado para aquilo? Estaria ele disposto a pôr definitivamente tudo para trás e começar de novo? Seria aquele homem capaz de dar a tão linda mulher tudo o que ela merecia? Às vezes os sentimentos não bastam…
- Eu quando te vi pela primeira vez parecia que ia desmaiar de tanta emoção…porém não sei se estou à tua altura. Eu não sou ninguém, sou só um simples homem dominado pela dor. – confessou Joaquim.
- E eu uma simples mulher que quer apagar essa dor, se tu a isso estiveres disposto.
Como ainda não chegava o silêncio daquele local, juntou-se-lhe o silêncio entre Joaquim e Diana. Finalmente interrompido pela sugestão ou quase “ordem” de se irem embora, porque estava a ficar tarde, por parte do vendedor.
Já a caminho do apartamento dela foram assaltados por dois homens. Apareceram por trás deles também num tapete voador. Um dos homens saltou para o tapete deles e agarrou-a sem Joaquim se aperceber. Quando este se deu conta do que estava a acontecer já a sua miragem estava a ser ameaçada com uma faca.
- Passa para cá dinheiro ou então vais ver o sangue desta pérola jorrar! – ameaçou o assaltante que empunhava a faca.
- Tenham calma, por favor, eu dou-vos o que quiserem – proferiu Joaquim ao mesmo tempo que botava a mão à carteira à procura de dinheiro – Tomem aqui está o dinheiro. Agora larguem-na, por favor.
- É toda tua! Adeus. Foi um prazer! – despediram-se os assaltantes em tom de gozo.
- Estás bem? – perguntou Joaquim – Tive tanto medo que te acontecesse alguma coisa de mal!
- Eu estou bem, obrigado. Muito obrigado.
Joaquim ergueu a mão para a roçar no rosto de Diana, e foi então que a aliança reluziu, causando à mulher um enorme desconforto.
- Quando estiveres disposto a deixar o passado e construir um futuro, avisa-me – disse ela ao mesmo tempo que se afastava da mão daquele homem.
- Deves pensar que é fácil! – afirmou ele irritado – Vamos mas é embora!
Não trocaram uma palavra o resto do percurso e nem sequer quando cada um foi para seu lado.
Dias, semanas, quem sabe meses, se passaram sem que Diana abandonasse o pensamento de Joaquim. Tivera medo de a perder no assalto, mas agora é que a estava a perder por completo. E ele sabia o que era perder alguém…
Por isso, decidiu procurar Diana. Foi ao seu apartamento onde, depois do espanto, ela o recebeu dizendo:
- Vens vender outro tapete?
Ao que ele respondeu:
- Não venho vender nada. Venho abrir-te as portas do meu coração.

terça-feira, abril 29, 2008

futuro...


Fiz 18 anos no domingo. Ainda sou uma miúda mas já vivi muito, não demasiado, contudo o suficiente para saber que a vida tem todas as cores do arco-íris e todos os trovões do mundo.
Tenho uma infinidade de arco-íris e de trovões para ver e sentir, ou recordar e chorar. Sei que sou amada. Sei que quero ser amada. Mas sei também que quero que me deixem em paz, sozinha comigo, sem alma.
Sou um ser do mundo e acha-o muito pequeno porque não quero nada dele. Mas sei que ele me vai dar o mundo.
Sei, porque sei! Sei, porque o sinto! Sei, porque o mundo é meu!

domingo, abril 20, 2008

Lágrima


Lágrima fugidia
Quente e acolhedora
Um ápice de dor
Na água da pureza

Sabor popular
Como o daquele doce
Comido um dia.
Sabor fraternal
A lágrima do dia-a-dia.

sábado, abril 12, 2008

voar para longe


Voar para bem longe. E ficar mesmo aqui.
Sentir o beijo das palavras. O vento a acariciar-me ternamente. A música embalando os meus pensamentos. Parece delicioso. É delicioso. Talvez feérico.
Fecho os olhos por um instante. A imagem escura substituída por um mar que jaz na memória; com um cheiro que aromatiza a alma. Um imbróglio de sensações que parecem tocar suavemente, arrepiar e confortar.
Mas não passa de passado, intensa e mentalmente revivido. Continuas longe ou perto. Não sei. Perdi a noção do espaço. Sei porém que me encontro aqui sentada na penumbra, a pensar no estrangeiro do meu coração, em que de repente te tornaste.
Vem ou volta para mim! Molha-me como a chuva! A água se confundirá com as lágrimas. E todas as gotas eu guardarei preciosamente. Uma lembrança de ti, uma melancolia para mim.
Agradáveis palavras essas de ouvir; de proclamar e sentir. E abraçar e fugir. E voltar!
Na vida que não cessa de surpresas, tu és a minha maior surpresa. Dia após dia, mês após mês, ano após ano, te encontro transfigurado em alguém tão sempre familiar. Abraço-te sem saber quem estou a abraçar. Um desconhecido ou a minha pedra nuclear?! Olho-te e não sei o que me acontece. Como diz o outro, talvez seja feitiço… Manténs-me perto, longe. Presa a ti por muito distante que estejamos.
Cair em ti parece destino. Conhecer-te foi destino. Mas o que é o destino?!
Um sussurrar bloqueia-me os movimentos. Aprazível sussurrar. Leva-me com ele nas partículas serenas do som. Vejo rostos. Não passam disso. Não encontro alguém que me faça lembrar de ti. Não te encontro a ti. Regresso ao meu eu e sorrio. Ouço alguém chamar por mim. Certamente não és tu. Mas sim um daqueles rostos, que carrega o meu sorriso…
Tu também já o carregaste tantas e tantas vezes… Agora recebes uma parte suburbana do meu ser. Sei que é confuso, difícil de entender, mas também não é isso que anseio. Queria simplesmente sentir-me próxima de quem nunca me consigo abstrair.
Proteger-te e acompanhar-te, como o peluche que todas as noites vigia os teus sonhos. Dás-lhe a mão e tranquilamente adormeces…ou choras… Essa lágrima tormentosa, me magoa e estripa, na impotência de mutilá-la do teu rosto. Não queiras que não me sinta mal por não ser sempre o ombro que precisas! Lamento tanto cada lamento calado! Mas com isso fui aprendendo como as palavras são bonitas. Foi contigo que a vida me ensinou muito. Foste tu.

sábado, abril 05, 2008

calmo pecador


Calma, tal maré que embala
As suas naus amadas
Com mil beijos no casco.
Navegando eu vou
Neste mar só meu!
Não tenho medo.
Não tenho pressa.
Sofro da serenidade
Dos dias de céu azul,
E soalheiro, da sua brisa suave
Que me acaricia o corpo.

Vento divino que me rodeia.
Divina não sou,
Nem quero ser.
Corta-me a respiração
Os momentos de terríveis,
Impuros prazeres.
E eu já nem respiro.
Vivo pela graça dos pecadores
Que em paz o são.

Mendigo da esquina,
Rosto da fama.
Somos um só.
Os dois um santificado pecador
Puro de pecados.
E de pecados puros.

sábado, março 29, 2008

memórias


Noite de lua cheia,
tu no meu pensamento.
Por mais que não queira,
profundo desalento.

Águas passadas;
incontroláveis saudades;
rasto de pegadas
aqui nesta cidade.

Águas passadas
nadar ou afogar?

Incontroláveis saudades
Até à eternidade.

Rasto de pegadas,
importantes demais,
para serem apagadas.

Trilho difícil,
talvez impossível.
Mas muito apetecível.
Irresistível.

quarta-feira, março 12, 2008

Ser ninguém



Não sei ser poetisa.
Voo com as palavras
Pela ponta de uma caneta
Num tempo qualquer,
Num instante de euforia.

Sinto pelas palavras.
Ai, se sentissem como eu sinto
A palavra amor, dor e cor,
Seriam Homens de alma poética,
De consciência artística
Sem artista ser.

Escrever é como gritar…
É dizer coisas sem nexo.
Sentir-se só,
Ouvir o eco impresso no papel.
Escrever é a liberdade
De quem se sente preso.

E eu presa me sinto.
Amarrei-me sozinha,
Num efémero delírio
De um génio ignorante.

Não sei ser alguém.
Sou só as palavras aqui escritas,
Os sentimentos sufocados,
A alma de ninguém.

quarta-feira, março 05, 2008

Fodasse


Vamos foder a vida?
Antes que ela nos foda a nós…
É difícil mas juntos a foderemos
Tão bem que ela irá gemer de prazer.
E nós rir-nos-emos cinicamente
Com um sorriso maléfico de quem
Se Deus acha, ou neste caso, Satanás.

Fodasse para o belo pôr-do-sol!
Fodasse para os passarinhos a chilrear!
Fodasse para a amizade!
Fodasse para ti! E para mim!
E fodasse ainda para o amor!
Que esse sim, fode-nos bem!
E nós nem conseguimos reagir.

Fodasse para o carinho!
Fodasse para a ternura!
Fodasse para as lindas palavras!
Fodasse para as saudades!
Fodasse para o coração!
Fodasse para o romantismo!
Fodasse que eu já me fodi!

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Talvez, um dia...


A minha dor és tu,
Meu anjo de asas brancas,
Que voas para longe de mim,
E continuas tão perto!

Consigo ouvir a tua voz,
Única e maravilhosa;
O teu sereno olhar
No qual eu me afundo.

A minha vida és tu.
A tua ausência uma tortura,
A tua presença um tormento
E tu, uma necessidade.

Eu preciso de dizer que te amo!
Amei-te! Nunca deixei de te amar!
E a todos os instantes te amo
Com a pureza do primeiro amor.

A minha fraqueza és tu.
Meu sangue corre turbulento
Ao toque da tua mão
E logo flutuo perdida em ti.

Amor, meu primeiro amor
Dá-me a mão e vamos.
Há algures o mundo
Onde a nossa história pode existir.

A minha maior alegria foste tu.
Hoje, os beijos de antes chegam saudosistas
Envoltos em momentos de ontem
Que não são os de hoje, nem irão ser os de amanha.

Adeus amor,
Meu último amor.

domingo, dezembro 09, 2007

...


Um fluir desenfreado
Num dia recém-chegado
Rostos e mais rostos
De feições variadas
Ora a sorrir ora a rir
Ora triste ora a chorar

No entanto, ninguém pára
É um pulsar forte
É medo de parar
Necessidade urgente
Esta de não ter tempo
Para sentir, não ter tempo

Leva-nos a corrente
Chama-nos o rio
Puxa-nos a foz…
Somos o mar.
Olha a imensidão
Todos nos querem afogar

Mas temos que navegar
Num navio por construir
Com pressa para o horizonte
Desconhecendo que ele é só morte
Nossa amiga, mistério da vida
A fazer-nos uma espera.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Do cimo do monte


Do cimo do monte vi o finito e o infinito a amarem-se. Do cimo do monte vi paisagens perfeitas…casas simples…aves e flores coloridas…o céu a escurecer. Do cimo do monte vi a serenidade.
O rio a correr lá em baixo água com a sua água pura em que me apetecia mergulhar…O rio tem a capacidade de nos prender num ponto do seu leito, e ao mesmo tempo, de nos transportar a um lugar longínquo e inexistente. E entre essa prisão e essa viagem, acabamos, de alguma maneira, por nos sentirmos bem.
Queria transformar-me num peixe para poder viver no rio e ver o que mais ninguém vê. Explorar aquele mundo e a seguir ser andorinha e voar e ver o que mais ninguém vê.
Mas aqui me encontro inerte no cimo do monte…só o ar fresco que percorre o meu corpo, me anuncia que estou viva.
Neste momento não queria sentir nada humano. Queria ser o tal peixe ou a tal andorinha, ou até uma égua. Nadar, voar e correr livremente sem preocupações.
Poder esconder-me numa alga. Pousar nas folhas com um toque suave e apaixonado. Galopar por grandes campos com o horizonte ao fundo e a relva verdejante bem perto!
Anoiteceu, e do cimo do monte as estrelas saudei. Era capaz de dizer que houve uma que também me cumprimentou. Sim, a mim em específico! Dizer isso seria abusivo? Ou doido? Não interessa porque realmente houve uma estrela que me saudou. E apesar da distância que há entre mim e ela, senti-me dentro da própria estrela. Tão aconchegada, tão viva! Porque basta um pequenino gesto para que por momentos a distância desapareça. E que fazer quando o “por momentos” passar? Sentir vazio? Não! Simplesmente sentir gratidão por ter existido.
Do cimo do monte caí em esquecimento. Ali fiquei ao passar do tempo. Com lágrimas vazias de dor e de alegria. Sem razão de serem senão escorrerem e existirem.
Talvez um dia consiga sair daqui do cimo do monte. Gostava que alguém me viesse buscar pela mão.
Uma vez li que “Os nossos amigos são como as estações, onde esperamos que venha o amor que nos vai levar”. Pode o monte ser um amigo e eu esperar aqui? Será que existe mesmo esse amor? Será que tenho que esperar muito? Ou estará a morte mais perto que o amor?

terça-feira, novembro 07, 2006

Anjo da guarda



4h da madrugada…

Queria poder levantar-me agora para ser a guardiã dos sonhos de toda a gente! Dar uma calma irrepreensível a quem a esta hora os anjos deviam proteger. E a cada pesadelo arranjar maneira de o apagar com a facilidade de uma borracha. Chegar ao pé da cama de cada pessoa que sofre injustamente e fazer-lhe uma festinha, dar-lhe um beijinho, um sorriso para ajudar e ficar ali a noite inteira…simplesmente a olhar para e por aquele ser que a vida tenta derrubar. Sem sentir o tempo passar. Parecer que parou tudo ali naquele instante em que a magia do momento se ofuscou a ela própria.
Devíamos todos ter um anjo da guarda que nos desse a mão quando a razão torpedeasse o coração! Que nos abraçasse forte! Talvez assim não ousássemos empregar a palavra solidão.
Alguém que enquanto dormimos se encarregasse de segurar o mundo para nós. Era tão bom se assim fosse!
Escolher um indivíduo e dar tudo por ele…como seria? A entrega, a responsabilidade, o sacrifício, tudo a convergir para um âmago que delineámos.
Seria um conto de fadas que começaria por “era uma vez”, e acabaria, com o enganador “e foram felizes para sempre”.

quinta-feira, outubro 26, 2006

Um momento para respirar


Um momento para respirar…Por favor …só um momento! Para poder sorrir…por breves instantes um sorriso natural… E sentir…sentir a calma brisa que paira no ar, que me acaricia suavemente…como quem beija um aroma que se escasseia! Por favor… Só um momento! Peço apenas um momento! Aquele em que olho à minha volta e vejo pessoas que tão bem conheço, pessoas que me fazem bem! Que me dão certezas! Quero este breve e estúpido momento! Vivê-lo e só depois descrevê-lo!
Desejo ardente de puder aplicar a palavra divertimento! E não álcool! Não fazer dos bons momentos, os maus momentos, enjoativos e alucinatórios.
Parecer estar calma… apática da realidade mundana…conselhos para este e para aquele…querer abarcar com tudo e todos! Ser como um porto seguro! Mas depois…simplesmente…beber… Beber e sentir a tão suave brisa de uma maneira estúpida! Sentir atracção pelo toque de um carro que depressa passou ao meu lado e que afinal não provocou nada mais que vento! Um vento frio…de que não gosto mas parece fazer-me bem…
Um porto seguro que sofre tremores de terra sem ninguém dar conta! Ninguém estremece nem sai abalado com eles! Enquanto que eu acabo sempre por cair a cada estremecer! Tremores de terra que abalam… causam danos…e que quem sabe, destróiem…enfim potencialmente mortíferos. Mortíferos…fracos aqueles que precisam de um refugio!
Mas no fim nem sequer importa (o pior é o entretanto) …que estúpida importância aquela que demos!
O abismo envolve-nos…tudo parece desabar! Magoar quem sabe! Então, reparamos que tudo não passou de breves instantes de anestesia… Enquanto ela dura nada dói… E isto acontece tantas e tantas vezes! Que nem nos damos conta que é essencial ao nosso eu! Mesmo depois de nos ter feito desabar tantas e tantas vezes! Não conseguimos… não consigo tornar esta rotina em algo novo… Não consigo porque a sensação parece sempre fazer-me bem, parece sempre proteger-me, envolver-me e dar-me segurança! Não consigo porque estou farta…tão farta!






Ass: Ana Pedro e Cláudia Pinho



P.S: Ela é que escreveu quase tudo...é mesmo uma grande escritora ;)

segunda-feira, outubro 23, 2006

Um riso imprudente


O mundo é um lugar estranho...tão imenso e tão pequeno. Não vive mas sobrevive. Talvez nós o tenhamos feito deixar de viver. Ou talvez nós sejamos o próprio mundo. E então quem não está a viver somos nós.
Não encontramos resposta para o que será o propósito da vida. Andamos todos à deriva...uns mais, outros menos...mas cada um sem aqui viver verdadeiramente. Vivemos sim no mundo dos sonhos...e o real parece-nos ilusões que são.
E queremos ser felizes. Por mim podiam-no ser todos. Porque sei que não o seriam. Nunca ninguém está satisfeito. Ora isto, ora aquilo. Aquele pormenor, que transformamos em 'pormaior'. Tudo é um pretexto para ambicionar mais. Para nos armarmos em coitadinhos.
A meta não é a felicidade...é o além mar. Perseguir o horizonte. Remar fatigamente. Abarcar algum naufrágo encontrado durante a jornada. E ensinar-lhe o caminho mesmo não sabendo o caminho. Lançar sempre o dado. Um passo de cada vez...muitos de cada vez. Olhar para trás com ternura. Viver o presente como se não houvesse futuro. E olhar para o futuro com um sorriso. Não um riso mas um sorriso. Porque talvez encarar o futuro com riso seja imprudente....